CLÉLIO MUNIZ

A ameaça

“Talvez porque seja uma criatura volúvel, de reputação duvidosa… ou talvez porque seu único propósito da vida seja perseguir um objetivo: algo que afinal, ao ser atingido, não mais é vida, mas é o princípio da morte.” [Fiódor Dostoievski]

O sol daquela manhã de domingo imparcial e quente, banhava toda porção da “Pedra Lisa”, como se a aura do seu benfeitor e líder espiritual, o padre Belchior de Pontes – que há 270 anos vive na memória daquele rincão, estivesse em sintonia com os acontecimentos terrenos que iriam ocorrer naquele dia.

Havia um vento ameno, o bastante para que os galhos das árvores dançassem o balé misterioso das coisas feitas pela harmonia dos quatro elementos e a natureza, espalhava o seu espetáculo gratuito com os pássaros que ofereciam seus cantos em uníssono na sua diversidade: Biguás, Canários da Terra, Coleirinhas, Sanhaços, Sabiás, Saracuras, Tangarás, entre outras espécies, emprestavam o lirismo ao deleite dos ouvidos.

O Maestro, abstrato aos olhos, mas onipresente, regia a harmonia. Cigarras e sagüis faziam a percussão ao concerto cristalino que ecoava por toda a floresta, onde outrora, Paulo Rodrigues Rotger, incorporou a beleza em seus versos: ”Ainda existe nesse mundo um cantinho…/ Em suas matas correm rios de águas claras / Há um trenzinho a me esperar na estação / Os passarinhos vêm aqui fazer seus ninhos / O arco-íris já é nosso cidadão!… / Quem aqui chega, toma essa água, aqui fica / Cria raízes e como pedra aqui se enterra… “ (1)

E é nesta biodiversidade um tanto desgastada, que fica a apenas 33 Km de distância da metrópole São Paulo, que se passa a nossa história; mais precisamente no final da década de 1990; no entanto, por respeito aos descentes desta terra e também aos seus demais moradores, não menos importante, é saber que a formação desta cidade ocorreu em tempos remotos, colonizada pelos portugueses no século XVI que catequizaram os índios Tupis-Guaranis e a fundaram primeiramente como uma pequena Vila, dando início a uma conjugação de raças entre índios, escravos, sitiantes e lavradores portugueses, tomando maior vulto após a independência do Brasil com a chegada dos primeiros imigrantes alemães e alguns nos depois com a vinda de italianos e japoneses, estrangeiros que muito contribuíram para o desenvolvimento e a cultura local.

Não se sabe por que aquela terra tem uma magia distinta de singularidade jamais vista em outras paragens. Quem ali teve a oportunidade de compartilhar dos seus mistérios, não tem palavras que exprimam a sua experiência; são sentidos e sensações indescritíveis de tradução, teve até visitante que descreveu visões de personagens que ali habitaram, tanto que para desmistificar ou mesmo comprovar tais aparições, certa ocasião, uma ONG de nome Desvendando Realidades e Segredos, reuniu por duas semanas, diversos estudiosos que ficaram acampados em barracas no alto da serra, dentre eles: astrônomos, físicos, botânicos, matemáticos e religiosos de várias seitas e estirpes; no entanto, por não terem a sensibilidade extra-sensorial para as coisas além do plano físico que as pessoas comuns são capazes, tudo o que conseguiram, foi elaborar mapas astrais impressos em folhas de papéis, a descoberta de uma ou duas espécies de plantas até então desconhecidas dos compêndios e o sumiço de um missionário católico e um pastor evangélico, que haviam se separado do acampamento para resolverem uma contenda de cunho religiosos, contudo, dias depois graças ao helicóptero Águia da Polícia Militar, ambos foram encontrados e içados de uma clareira.

Sob XXX árvores frondosas da mata Atlântica, três amigos, Lúcio o anfitrião, Chico e James se embebiam da beleza da floresta de Embaúbas de folhas inconfundíveis; Embiruçus de enormes flores brancas; Tucuns protegidas por seus espinhos, Cedros-rosas com seus poucos galhos no mais alto do tronco por medo de ficarem sem sol, Comboatãns oferecendo seus frutos aos animais, bem como diversos remanescentes da flora mais cobiçadas, entre elas Jatobás, com suas cascas de canoas; Canelas de madeira nobre; graciosos Guatambus de braços abertos; Copaíbas de troncos e galhos esparramados e, algumas vistosas Araucárias.

O local, um sítio modesto fincado num pedaço de baixo relevo como que escavado pelo tempo na serra de Itapecerica, morada de Lúcio Barbosa e um belo casal de cães de grande porte, Meg e Coronel. Baiano natural de Senhor do Bonfim e neto do “véio” Duca, a quem carrega sua memória com respeito pelas muitas histórias e influências de sua cultura nordestina e de seu veio poético. Marinheiro noutros tempos; morou no Rio de Janeiro, onde se dedicou às suas composições. Em seguida se fixou na cidade de São Paulo, tendo ganhado vários prêmios em Festivais de MPB por todo Estado, o que lhe proporcionou ter uma de suas músicas, “Cidadão”, como uma das mais executadas com dezenas de regravações.

E na tranqüilidade daquela manhã de verão, o poeta entoava uma canção:

(2).

O meu sertão é coisa séria minha gente

Lugar de cabra valente, muié séria e peixe bom

Caboclo canta desafiando a incerta

Nunca vi tanta beleza, cantada no mesmo tom…”.

Recostado a uma aroeira, absorvendo a calma do refúgio da paisagem enlevada pela melodia do poeta, o amigo Chico – um dos que jurava ter tido ali experiências extraterrenas em outras ocasiões – tomou da palavra para algumas considerações:

– Sabe, em dias assim, me sinto como se eu pudesse fazer com que o relógio parasse e que o nada se sobrepusesse ao tempo do homem civilizado com suas objeções.

– Como assim Chico. Interpelou James e rindo, acrescentou – Você está filosofante sobre a nossa existência?

– Não cara. Chico respondeu. – Para isso existi os filósofos que tanto já discutiram e ainda discutem a matéria. Eu apenas estou exprimindo as minhas necessidades do descanso físico e mental. Sabemos que a vida é um mistério irremediável e que se ficarmos pensando os por quês, a cabeça explode irmão! É como perguntar se quem nasceu primeiro foi XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXRisos.

– Sem parar de dedilhar seu violão, Lúcio, que passaremos a nos referir como o Poeta, aderiu ao assunto na tentativa de elucidar a questão: – James, o que o Chico está tentando dizer, é sobre a contemplação, não é isso?

– Na mosca! Chico afirmou taxativamente. – Vejam, depois de uma semana intensa, trabalho, poluição e problemas diversos, inclusive familiares, eu sai do bairro da Penha e percorri mais ou menos 40 km para chegar aqui; parece longe, mas ao contrário, venho com a maior disposição, pois sei que vou encontrar nesta cratera…

Imediatamente o poeta interpelou dizendo – Isto é um vale. Não sei por que você insiste em chamar de cratera. Cratera quem tem é vulcão e neste pedaço de terra não há o menor sinal de ser um vulcão. Risos.

Chico, rindo descontraidamente, respondeu: – Cara, este é o meu jeito carinhoso de falar daqui. Porque o terreno fica bem abaixo da estradinha de terra que leva a outros sítios adjacentes. Quantos metros vocês acham que deve estar abaixo? Eu acho que deva ter uns 5 metros e vocês?

James, arriscou – Creio que uns 3 metros!?

– Que nada, tem exatos 7,50 metros, confirmou o poeta! E sei, porque na época de escolher o local para construção, tive que medir toda a área pra poder escolher o melhor lugar que a casa deveria ficar e o mais importante, sem ter que cortar nenhuma das árvores. Quem passa por esta rua de terra não consegue visualizar onde estamos, primeiro pelo desnível e segundo pelas árvores e mata de divisa da rua.

– É verdade. Concordou James. – Mas, voltemos ao assunto da contemplação, continua Chico!

E como se estivesse meditando, o amigo Chico, sorveu um pouco da “branquinha” e voltou à explanação sobre o tempo e o nada:

– Pois é quando chego neste recanto, é como se mundo lá fora inexistisse de fato, porque o aqui e o agora são mais importantes do que a cidade a cidade que deixei pra trás com seus prédios, seus carros predadores, suas esquinas traiçoeiras e suas ruas sangrentas iluminadas pelas falsas luzes da hipocrisia que consomem cada gota de sangue e da alma das pessoas com seus sonhos subjetivos. Enquanto que aqui nesta terra, temos o privilégio de sermos abraçados pelo cheiro da mata e seus perfumes, pelo canto dos pássaros, do zunir dos insetos e dos diversos animais, que são a generosidade da natureza que inclusive me propícia desfrutar da amizade de vocês.

O Poeta cessou a música momentaneamente pra dizer: – Este sentimento é recíproco, tenha certeza Chico! E aproveitou para abordar com mais profundidade o pensamento do amigo – O homem vive no mundo das aparências. O que ele chama de progresso, na verdade é a sua própria ruína, porque a sua ignorância é que o faz tão mesquinho. E com olhar indagador acrescentou – Por que, existem guerras, fome e doenças materiais e psicológicas.

– Ok, mas você poderia dissecar este comentário? Pediu Chico.

Após breve pausa assentando o violão em seu colo, o Poeta expôs a solicitação: – O homem vive no mundo dos sentidos que é o mundo das ilusões, porque os sentidos são variáveis e assim se apega a verdades aparentes que são mesquinhas endeusando a posição social, quanto de dinheiro possui no banco, prestígio, quer dizer: entrega-se à vaidade aparente, esquecendo-se do Mundo Real que é o mundo das Essências, que é o mundo das idéias, enfim o mundo que realmente importa. Posicionou o violão nos braços e emendou sua música:

“…E agora eu fico fertilizando a lembrança

Sem deixar de ser criança com vontade de voltar

O dia a dia me faz ver com mais tristeza

Já não sou mais natureza, não consigo viver lá…

Uma Graúna pousou no galho mais próximo do poeta como que dissimulada para ouvir a canção…

…Lá onde o veio não se esconde no quintal

Fica no meio dos moço pra pode aconseiá

E todos ouvem, até o mais traquino

Porque desde pequenino se aprende a respeitá

 

Quisera eu levar nas costas uma mochila

Sem saber que existe fila pra comprar o leite e o pão

E cavalgar de peito aberto mesmo ao léu

Beber a água do céu e comer o fruto do chão….

 

E como os pensamentos seguiam o curso ameno daquelas reflexões, não havia interrupções da música, uma vez que a mesma interagia no ambiente e de certa forma fazia parte do contexto, da mesma forma que os bichos. Era um clima de comunhão entre todos os seres e suas vozes.

James ao mesmo tempo em que prestava atenção às palavras da canção, seguindo o vôo de uma borboleta, disse:

– De fato, o homem é como duas faces de uma mesma moeda, de um lado a pureza da criança que se encanta e admira a natureza, as plantas, os animais, os rios, as estrelas e seus astros e…

Chico completou o raciocínio do amigo – E o outro lado da moeda, é o adulto que perde a inocência do que é real, do que de fato importa à sua existência e assim, deixa de enxergar a essência do todo e de tudo a caminho da destruição.

– Justamente. Disse Lúcio – Quando pequenos, somos a pureza que é a concepção da criação, daí, enxergarmos a razão do que somos em relação à perfeição de todas as coisas ao nosso redor. Fez uma pausa. Tomou um trago e percebendo o interesse dos dois amigos, continuou: – No entanto, vamos à escola para aprender Geografia, História, Matemática, enfim as Ciências em geral, mas da adolescência até fase adulta, somos condicionados pela sociedade aos fundamentos das idéias do poder e do dinheiro e aí nos afastamos do que é Puro, Limpo e Perfeito, e assim, nos tornamos cegos da capacidade singela e o mundo não passa de meios pelos quais o exploramos para a nossa vaidade e ganância; geramos escravidão, fome e preconceitos de todas as formas, financiamos guerras e exclusões sociais e segregação. O pior é que chamamos tudo isso de progresso, mas na verdade é a deformação como seres deformados que somos. Fez outra pausa, desta vez para consultar o seu arquivo de experiência e decretou – Tudo é preciso e necessário!

James, concluiu: – Resumindo, é o que na filosofia chama de processo dialético, que é a transformação das coisas e das idéias, só que o homem infere uma transformação inconseqüente à natureza. E novamente iniciou-se a canção:

“…E agora eu fico fertilizando a lembrança

Sem deixar de ser criança com vontade de voltar

O dia a dia me faz ver com mais tristeza

Já não sou mais natureza, não consigo viver lá

 

Lá onde a lua aparece e faz clarão

Em conversa de mais véio menino não pode entrar

Se a chuva cai, sapo não fica calado

Tem cantiga no roçado, tem leite lá no currá…”

 

O poeta parou e após meditar por breves segundos, emendou:

– Mas vejam que mesmo neste lugar que é apenas uma pequena parte do que resta da costa Atlântica, não é difícil de observarmos o equilíbrio da fauna e da flora, porque a natureza é sábia em manter a sua essência.

– É uma questão de consciência, disse Chico e dirigiu a palavra ao outro amigo. – James, veja o caso do Lúcio; quando ele construiu esta casa, o fez de forma racional, pois, vê-se que houve a preocupação em aproveitar o espaço permitido, quer dizer, utilizou o espaço vazio que existia no terreno, assim, não houve destruição. A parede dos fundos está exatamente no alinhamento do barranco escarpado e nas paredes laterais, bem como em sua fachada, ficaram acomodadas varias árvores, algumas delas muito próximas às paredes sem que fosse preciso derrubá-las. Palavras estas que provocaram breve ponderação do Poeta:

– O fato é o seguinte: para entrarmos na mata, temos que ser humildes para termos merecimento e isso se consegue se pedirmos licença à Mãe Natureza, porque com respeito ela nos dá permissão e nos acolhe em seu abrigo. Mantendo os acordes em bemol, o poeta deu continuidade ao seu raciocínio – A necessidade de sobrevivência é comum a todos os seres vivos e o homem nada mais é do que uma parte disto tudo, mas infelizmente vivendo no Mundo das Aparências, ele não compreende que o meio ambiente é a única coisa inteligente no planeta. Fez uma pausa e com o olhar penetrante em meio à floresta deu nova sequência à canção:

“…Disse um poeta que no sertão se criou:

“saudade é aquilo que fica daquilo que não ficou”

Eu digo a ele falando do mesmo amor:

“saudade é sertão escrito nas asas de um beija-flor

 

E agora eu fico fertilizando a lembrança

Sem deixar de ser criança com vontade de voltar

O dia a dia me faz ver com mais tristeza

Já não sou mais natureza, não consigo viver lá

 

Lá onde a lua aparece e faz clarão

Em conversa de mais véio menino não pode entrar

Se a chuva cai…”

 

De súbito, ouviu-se o urro de um animal feroz – Zrrriiimmm!!! Zrrriiimmm!!! Zrrriiimmm!!!…, de tão alto o som, que calou a canção; da tranqüilidade fez-se o alvoroço e às nossas considerações fez-se a certeza. Juntou-se o medo e instalou-se o pânico. Todos os bichos daquela mata se alardearam em estridente fuga; a Graúna como todos os demais pássaros, voou desordenadamente em busca de refúgio nos galhos mais altos e mais longe que pudesse alcançar. Sagüis guinchavam em fuga desesperada como a pedir socorro, até se aquietarem em seus esconderijos; um grupo de lebres aterrorizadas e seguidas por um casal de lagarto passou feito um raio próximo dos três amigos. E no lugar da beleza imperou o silêncio, pairando no ar somente o terror inconfundível que era o grito da besta-fera, único som audível e estridente que passou a reinar naquela paragem.

Inconformados com aquele furdúncio, os amigos se entreolharam buscando respostas. O poeta aporrinhado que ficou, recostou seu violão no tronco de uma das árvores, chamou seus fiéis cães e ordenou para verem o que estava acontecendo. Imediatamente, Coronel e Meg saíram em correria desembalada em uma das direções da floresta e em menos de dois minutos, ouviam seus latidos frenéticos em denúncia ao achado. A Besta se calou, mas era certo que ainda estava escondida, porque os cães não voltavam e não paravam de denunciar. O amigo James, resoluto avocou para si a captura:

– Eu quero ter o prazer de ir até lá pra verificar a “presa”. E saiu em direção aos latidos. Nem bem se embrenhou na mata, o amigo Chico perplexo de indignação, reclamou:

– É brincadeira. Quando tudo conspirava para um dia perfeito, acontece um negócio desses!

– Pois é meu amigo, coisas como esta estão acontecendo aos milhares por este Brasil afora. Este é o nosso mundo, o mundo dos homens! E você acha que dá pra mudá-lo, você arrisca um palpite Chico, duvido?

– Cara, eu estou indignado. Confesso que não sei lidar bem com isto! É incrível como tamanha aberração, tão próximo de nós possa acontecer, sem que nada possamos fazer. Será que não é melhor a gente ir até lá pra ver como o James está se saindo?

– Não esquenta Chico, eu sei que ele deve estar se saindo muito bem, e não esqueça que ele está com o Coronel e com a Meg.

– Ok! Sei disso, mas e se não adiantar, e se houver resistência?

Não se ouvia nem mesmo o zunir de uma abelha. O ar completamente parado, tudo estava em total quietude, era como olhar para a natureza inanimada de um quadro pintado pendurado na parede de uma sala; tudo estava estático e imóvel.

De repente o amigo James, acompanhado de Coronel e Meg, saí da mata e atônito diz: – É uma Husqvarna!

– Uma o quê? Indaga Chico.

– É uma daquelas máquinas devastadoras inventadas pelo Ser humano e que têm o som da Morte, porque ceifam vidas que levaram anos e anos para se erguerem…

– Ele está falando de uma motoserra Chico! Enfatizou o Poeta.

O amigo Chico perplexo com o que acabara de ouvir, questionou: – E aí James, quantos assassinos eram? O que disse e que você fez?

Visivelmente contrariado, respondeu: – Cara, embora eles estejam em terras de outro sítio vizinho, mas bem próximos da cerca de divisa, depois que contive o Coronel e a Mega, pude falar com os dois “trabalhadores”, que disseram que foram contratados para “limpeza” do terreno – é mole como tratam com desdém tamanha barbárie! Que têm que limpar da área seis ou sete árvores para a construção de um pequeno galpão que servirá como depósito. James fez uma breve pausa como se tentasse desanuviar a cabeça e continuou. – O que pude fazer? Fiz o que a racionalidade permite nesses casos, que foi mostrar a eles que há muito mais espaço no terreno do que simplesmente derrubar árvores…

– Então adiantou? Interrompeu o Poeta.

– Claro que não e embora ainda não derrubaram nenhuma delas, vão continuar. Respondeu o amigo.

– E por que não? Indagou Chico.

– James com sorriso de reprovação, emendou: Porque ambos são profissionais, quer dizer: fazem qualquer atrocidade mediante um pagamento. Para eles nada importa além do ganho. Não há a mínima consciência de crime, tanto que se referem a “limpeza” do terreno!

– Chico insistiu – Mas James, pelo que pude perceber eles pararam a máquina e…

– Ok, pararam sim e por que? Porque ficaram com muito medo do Coronel e da Meg.

– Bom Poeta, então manda os dois de volta pra lá. E nesse exato momento, ouviram novamente o som da máquina: Zrrriiimmm!!! Zrrriiimmm!!! Zrrriiimmm!!!…,

De um salto o casal de cães levantou abruptamente, porém o Poeta os interceptou ordenando que continuassem sentados ali.

O amigo Chico questionou: – Cara, porque você não os deixa irem lá? Ao menos não cortarão árvore alguma hoje!

Zrrriiimmm!!! Zrrriiimmm!!! Zrrriiimmm!!!… E agora mais do que nunca, a besta-fera concentrada em sua sede de aniquilamento, mantinha seu urro aterrorizante em alto e bom som. Os amigos eram capazes de sentir suas entranhas sendo devoradas pouco a pouco pela máquina.

James, interveio. – Chico, resolver as coisas dessa forma, é criar outro problema e caras como estes estão dispostos a qualquer coisa. Refletiu por alguns instantes e propôs. – O melhor é denunciarmos o crime.

Chico, visivelmente irritado, começou um desabafo estrilado: – É brincadeira! O problema todo é que apesar de crime, o sentimento é de impunidade. Em seguida como se estivesse rogando ajuda de forças superiores, disse: – Antigamente eu não dava crédito quando o Lúcio me falava das energias da mata, mas depois que tive algumas experiências estranhas, passei a acreditar que de fato elas existem e por isso, seria providencial que esta maldita motoserra quebrasse.

Mas nem bem o amigo Chico acabou de falar, ouviram: Zrrriiimmm!!! Zrrriiimmm!!! Zrrriiimmm!!! Zak! Zak! Zack! Zack! Vap! E o silêncio se fez.

James levantou-se e saiu correndo em direção ao local e imediatamente voltou rindo a beça – Vocês não vão acreditar! Aquele barulho estranho foi a corrente da motoserra que quebrou e é irremediável, não vão ter como continuar…

Embora pela concepção do crime não houvesse graça naquela empreita, mas devido ao contexto do que o amigo Chico tinha proferido, foi inevitável que os três amigos em total regozijo achassem hilariante a conquista da paz conseguida daquela maneira inusitada e riram a valer. De repente a dor que sentiam virou motivo de festa. O Poeta entrou em casa e trouxe um bandeja com alguns petiscos, três copos e garrafa de uma aguardente de reserva pessoal para que brindassem o momento e efusivamente rindo com os amigos comentava: – Ah! Ah! Ah!… o Chico pediu e o universo acatou.

– Chico foi magnífico. Disse James e rindo completou – Esse episódio vai ficar na história…

– Caras, coincidência ou não, aconteceu. Vocês não imaginam como estou aliviado. Disse Chico.

– E os bichos? Nem se fala! Completou o Poeta. E numa convocação à fraternização, acrescentou: – Ainda temos metade do dia para brindarmos a natureza e os seus mistérios. Quanto ao dono deste sítio, teremos amanhã para falar com ele. Tomou um trago sofregamente da aguardente, pegou seu violão e com o orgulho e contentamento de quem ama e respeita a alma das coisas puras, iniciou outra canção de seu repertório, que por si só, traduzia a resposta da natureza à covardia dos homens:

(3).

“É por isso que o meu canto não diz nada pra você

Ele não pinta paisagem pro olhar de quem não vê

É por isso que o meu canto não diz nada pra você

Ele não é acalanto pra quem vive por viver

 

Ele é fruto da caatinga que você não dá valor

Vem dum rio que era puro que você contaminou

Vem do peito do roceiro que anda cansado e só

Veste mundo está rasgado comendo chão e suor

 

A verdade é uma certeza que sorri sem gargalhar

É bom a felicidade que nunca diz onde está

E você andando as tontas com ares de arribação

Quem não pensa no que escuta não traduz uma canção…”

 

Aos poucos o ar com seu vento ameno fora se renovando e a tranquilidade do lugar se restabelecendo. Ouviu-se o rugir ao longe de uma jaguatirica e um casal de caxinguelês mesmo ainda receosos apareceu com seus filhotes numa das árvores próxima aos amigos.

 

“…É por isso que o meu canto não diz nada pra você

Ele não pinta paisagem pro olhar de quem não vê

É por isso que o meu canto não diz nada pra você

Ele não é acalanto pra quem vive por viver

 

Quem não corrige o princípio nunca chega a perfeição

Quem nunca apanhou na cara não sabe o peso da mão

Não queira que eu cante o riso do pouco pelo prazer

Prefiro cantar o pranto da alma pelo saber

 

Já que o espelho só retrata o pouco que pisa o chão

Poucos sabem da leveza que vem da outra dimensão

E você ainda me pede pra decifrar o refrão

Quem não sabe por que reza não traduz a oração…”

 

E à medida que o Poeta desenvolvia a canção, os pássaros e os demais animais saiam de seus esconderijos e confiantes reiniciavam a normalidade de suas vidas.

 

“É por isso que o meu canto não diz nada pra você

Ele não pinta paisagem pro olhar de quem não vê

É por isso que o meu canto não diz nada pra você

Ele não é acalanto pra quem vive por viver

 

Quando você se decidir pelo simples e não comum

Souber que em cada mente não existe apenas um

Vai flutuar pelos céus que o homem não alcançou

Vai trocar por uns sentidos a face do criador

 

Mas por enquanto eu lhe peço não ouça sem escutar

Não diga só pra dizer que aprendeu a falar

Eu quero aprender ouvir o silêncio de você

Sair no mundo sem medo cantando poder dizer

 

Que é por isso que o meu canto se completa ao encontrar

Ele é parte da paisagem que você gosta de olhar

É por isso que o meu canto se completa ao lhe encontrar

Ele é o acalanto que lhe encontra a despertar.”

 

E toda a vida voltou à tranqüilidade que nunca deveria ter saído.

 

1) Pequenos trechos do Hino de Itapecerica da Serra. Letra: Paulo Rodrigues Rotger e Arranjos do Maestro Elias Evangelista da Silva Filho.

2) Meu Sertão é coisa séria. Letra e música de Lúcio Barbosa.

3) É por isso. Letra e música de Lúcio Barbosa.

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